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23 FEV

300 homens estão na fila agonizante à espera de uma cirurgia de próstata

Filipe Mamede - filipemamede@hotmail.com

Imagine usar permanentemente uma sonda urinária por cerca de cinco anos. A situação, além de desconfortante e dolorosa, afeta também a auto-estima de quem sofre de hiperplasia prostática benigna (HPB) - uma espécie de inchaço da próstata, doença muito comum nos homens. Em Natal, cerca de 300 homens padecem dessa rotina, que deveria ser temporária. Porém, pela falta de estrutura da saúde, tanto do Estado quanto do município, muitos amargam a demora da fila da cirurgia de próstata, a solução do problema.

A incidência da hiperplasia prostática benigna (HPB) aumenta progressivamente com a idade, ocorrendo em 40% dos homens a partir dos 50 anos e em 90% daqueles com 80 anos. Entre os pacientes que apresentam a hiperplasia da próstata, 30% desenvolvem sintomas importantes que caracterizam o quadro clínico. "Desse percentual de homens sintomáticos, cerca de 50% necessitarão de tratamento e aproximadamente de 9% a 42% acabam evoluindo para a cirurgia", explica Óscar Jácome, presidente da Sociedade Brasileira de Urologia/RN.

De acordo com o médico, as complicações decorrentes de pacientes não tratados são conhecidas. Entre as principais, destaca-se a retenção urinária aguda - problema que pode ser desencadeado por vários fatores como, por exemplo, ingestão de algumas drogas, anestesia para outras cirurgias, infecção urinária, distensão da bexiga por excesso de bebidas ou diuréticos, queda súbita do estado geral por outras patologias", informa Jácome. Além disso, existe ainda a insuficiência renal, aguda ou progressiva, decorrente da hidronefrose causada pela obstrução, cálculos de bexiga, infecção urinária de repetição", enumera o urologista.

A demanda de pacientes necessitando uma cirurgia da próstata no Estado do Rio Grande do Norte não difere dos outros locais. Só em Natal existem cerca de 300 homens em uso de sonda urinária permanente para derivar a urina das bexigas obstruídas. Esse procedimento deveria ser temporário, ou seja, apenas para tirar o paciente do quadro de urgência médica - a retenção urinária aguda -, enquanto ele aguarda um tratamento definitivo. "Acontece que a demanda é muito grande e esses pacientes acabam aguardando entre dois e cincos anos. É preciso que haja um esforço do município e do Estado para rever essa situação. Existe uma sala montada com equipamentos no Hospital Santa Catariana e, além disso, foi feito concurso para urologista, mas até agora não houve mudança", critica Óscar.

"Um paciente que chega ao ponto de apresentar uma retenção urinária por HPB, que necessite uma sonda urinária, dificilmente vai conseguir obter a cura sem uma terapêutica cirúrgica. O que nós temos são centenas de pacientes trocando as sondas aproximadamente de 15 em 15 dias nos locais apropriados", complementa. Segundo o médico, somente o Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL) oferece este tipo de tratamento para a população que procura o serviço de saúde pública, e tem hoje uma lista de 60 pacientes aguardando uma cirurgia de próstata. "São 91 pacientes trocando a sonda todo mês no Hospital Santa Catarina - uma média de 57 pacientes na Unidade Mista Cidade Esperança, 80 em Mãe Luíza e 50 em Cidade Satélite, isso sem falar dos pacientes do interior do estado", reforça.

Pacientes usam sonda por tempo excessivo
O médico chama atenção ainda para o tempo excessivo no qual os pacientes acabam usando as sondas urinárias. Segundo ele, estes pacientes estão sujeitos a complicações que variam desde simples infecções urinárias e cálculos de bexiga até fístulas urinárias e sépsis grave - uma espécie de buraco na próstata. "Sem se falar na qualidade de vida e auto-estima destes pacientes. Se formos considerar os custos das trocas de sonda, do preço da sonda, assepsia, xilocaína geléia, luvas, seringa, custo do profissional, e dos custos com as complicações, antibióticos, internações hospitalares, a longo prazo o Estado acaba tendo um custo bem maior do que se realizasse a cirurgia de próstata antecipadamente", relata o médico. Além disso, muitos casos acabam evoluindo para insuficiência renal e os pacientes acabam necessitando de tratamento hemodialítico ou transplante renal.

Atualmente os pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) têm disponíveis apenas dois serviços para a realização de cirurgias urológicas eletivas: o serviço de urologia do Hospital Luis Antônio pertencente à Liga, que atende, no entanto, apenas os casos de câncer, e o serviço de urologia do Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL). "Apesar de realizarem um sério trabalho, estas instituições não conseguem atender à demanda que é crescente. Na próxima quinta-feira, 25, terei uma reunião com o secretário estadual de saúde e certamente vou abordar esse assunto", finaliza Óscar Jácome.

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